terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Catarse II

Acabar-me...
E não me plantar novamente no solo húmido da angustia
No ventre oco da esperança
na antimatéria do canto.

Ser...
Apenas o suor sem a fragância
O acidente sem a penúmbra
O náufrago sem a jangada
O porto sem o farol.
E acabar-me...

Acabar com esta sede que não cessa
Com este amor que só me cega
Que sem memória vive
E jóias se adorna e reluz
Mas não canta...

M.Castelo 21.09.2011

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Etc Etc Etc

Contesto em mim a veemência com que te agrido.

Regurgito todas as palavras, e de bílis empreguenadas, sinto-lhes o sabor agora de apodrecidas. Perdoa-mas...quero abandoná-las, deixá-las entregues às suas próprias agonias. Estou cansada de palavras.


Em mim nunca foram subtis, eloquentes ou ponderadas, mais pelo contrário. Deixei-as soltas, não domesticadas, desgovernadas nesta nação inteira que trago na alma.

Então vagueantes, não se fizeram rogadas, pegaram nas lâminas de suas armas, golpearam os flancos, barricaram-me as estradas, fizeram-me prisioneira de guerra na cela solitária da minha própria alma. Nunca as tivera pensado assim tão organizadas, tão calculistas, tão estrategicamente solidárias. Minimamente agrupadas, silabicamente singelas e no entanto; esmagadoramente incontornáveis.


Politizadas, sindicalizadas, mediatizadas a todo o lado chegaram hasteadas como salvadoras de uma pátria que não se nomeou, que não se quis nomear. Sempre me senti assim dessa forma, sem pátria, sem último nome adquirido quando casada, mas com a essência com que nasci e fui criada.



Seus exércitos não dormem e é permente a emboscada, sente-se nas têmporas, na saliva, na pedra que se forma na língua enferrujada.


Os Alfa-Betos do mundo, esses gigantes nucleares de ogiva encapuçada, tecem laboriosamente a renda que adorna as chaminés das casas em que não entramos. O fumo que se vê empalidece com a candura de tal guarnição, desvia-se o olhar da porta ignorando-se a chama no seu interior... e o fino fio da trama que se constrói, (ironia talvez ser da marca «Coração») forma assim a elegante barreira entre o que se vê/ouve e o que não se transpõe.


Gerem assim os cordeiros que o pasto transgénico não distinguem.


Pensei então esquecê-las, comer para enfardá-las, trincá-las à saída de sua casa, tossir para engasgá-las...

Não mais suporto o peso dos seus sinónimos, a subjectividade dos seus adjectivos, a gaguez das suas metáforas, os sinais da sua idade. Como está velha e usada esta linguagem, aquela que disseca, designa, descreve, interpõe e fala fala fala.


Aquela que abusa da casa que habita, do corpo que a guarda, do coração que a respira, da mente tantas vezes equivocada.


Transversalmente, riscou o céu desta alvorada que há milhares de anos se iniciou...

...perfurou o tempo como uma bala, sangrou o corpo em que se alojou.


Mónica Castelo 2009