Sinto o corpo em carne viva
o ardor agúdo da pele queimada.
Desconheço se ainda estou viva ou se toda esta penitência,
pelo juizo do Homem me foi anexada,
Sem mesmo de mim ser pertença
inquisitivamente julgada, sentença sonhada e dada:
- Mulher Suspeita e Amputada
Sua Puta, sua Bruxa, serás decapitada!
Assemelha-se a um avesso de qualquer coisa
esta sensação da epiderme a colar-se aos ossos,
Os orgãos à luz do sol expostos e dissecados,
a flacidez das minhas adiposidades denunciadas
que se derretem e desfazem.
Grotesca silhueta esta que se não vê num qualquer espelho,
que se não pensa quando o dia amanhece mas apenas no seu desfecho,
que subitamente nos encontra
quando do amor nos vimos despojados.
O brilho que me restava...?
como brinco numa orelha sustentado,
cristal meio suspenso, meio dependurado,
estremecia e cintilava ao vento e à luz oblíqua do sol no seu metal.
Deixei-o a descoberto e ao fazê-lo,
descobri a fragilidade da sua arquitectura
a singularidade do seu reflexo,
a inevitável oxidação do nickel no seu substrato.
E assim desenho na face convexa ´
os meus olhos a lápiz azul na esperança
de me tornar o céu desse astro intermitente.
Desejei a nudez de uma Eva sem pecado,
por saber que era original como um primeiro,
o teu beijo, o teu toque, enfim...
O tudo Tanto desejado.
Mas tudo quanto viste foi pecado,
Tudo o que sentias era abstrato,
Ao nada deste um rosto, sem real significado.
Tornei-me o vulto grotesco por ti tantas vezes evocado.
Por isso...Quero a solidão
Quero abraça-la pois sei-a inequívoca,
não desilude, não engana, desgasta mas não mutila.
E houve «alguém» que dizia mais ou menos isto certo dia:
«...é ao estar com os outros que me dou conta, do quanto estou sozinha.»
m.castelo
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